NBOMe: o doce amargo

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6 de maio de 2015

Os seres humanos vêm consumindo substâncias capazes de induzir estados alterados da consciência há milhares de anos1. Dentre elas, o grupo dos alucinógenos merece destaque devido às suas diversas funcionalidades, sendo usados em práticas religiosas2, terapêuticas3 ou recreativas4. Graças aos entraves propostos por proibições após a Convenção de Drogas de 19615, o mundo passou a prestar atenção a esses compostos de forma negativa, esquecendo-se de sua carga histórica e valor cultural ou terapêutico.

O proibicionismo não coibiu o surgimento de novos compostos, pelo contrário, foi durante essa época em que se viu um aumento vertiginoso no número de substâncias disponíveis. Quando novas substâncias são criadas à partir de moléculas de efeito já conhecidas, sua estrutura é modificada minimamente afim de escapar das punições legais e, ao mesmo tempo,  ser capaz de causar efeitos psicológicos6. As designer drugs ou research chemicals (RC) não possuem efeitos tão bem estudados quanto os do LSD ou outros alucinógenos7. Dentre esses compostos, chamaremos atenção para um grupo que emergiu nas duas últimas décadas, aqui tratados por NBOMe.

Usuários costumam avaliar a procedência do “doce” através das imagens que compõem o blotter, mas existem muitas substâncias que podem ser colocadas num papel impresso

Chamadas de fenetilaminas, essas moléculas se popularizaram graças aos compostos do tipo 2C, os quais apresentam grupos metoxi nas posições 2 e 5 do anel aromático. Eles apareceram em meados dos anos 70 e foram descritos pelo pesquisador Alexander Shulgin em um de seus livros mais famosos chamado de PIHKAL, cuja tradução literal seria “Fenetilaminas que conheci e amei”8. Seu efeito é semelhante ao do LSD, com usuários reportando efeitos positivos como euforia, alucinações, mudança de humor, aumento de criatividade e percepção sensorial. Ao mesmo tempo, podem causar dilatação na pupila, aumento na frequência cardíaca, náusea, insônia, paranoia, medo e pânico9. Devido à semelhança e ao custo mais barato para produzir, essas substâncias vêm sendo vendidas como LSD10. A adição de um grupo N-benzil aos compostos da série 2C (2C-B, 2C-I, 2C-D, etc) aumenta assustadoramente sua afinidade pelo receptor 5HT2A11, e isso aumenta o risco do agonista ligar-se ao receptor e causar uma síndrome serotoninérgica.

Apesar da aparente semelhança dos efeitos com os do LSD, há casos de pacientes que precisaram de apoio médico após consumir a substância12,13,14. A mídia também trás casos de morte sendo que a época dos incidentes15,16, a não realização de um exame toxicológico preciso17, as atitudes tomadas pelos indivíduos e os sintomas dramáticos18 indicam que as mortes estejam mesmo não ligadas ao caso de uma “leva de LSD ruim” como os policiais acreditavam, mas NBOMe19.

Além dos efeitos psicológicos, essas substâncias parecem induzir taquicardia, hipertensão, agitação, acidose metabólica, convulsão, retenção urinária, taquipneia, agressividade, entre outros. Alguns exames toxicológicos revelam a presença de outros compostos na urina de pessoas que usaram o composto. Esse fato levanta a possibilidade de que as amostras disponíveis no mercado possam estar contaminadas por outros componentes de concentração desconhecida após a não conclusão das reações que deveriam originar os NBOMe desejados12.  Deve-se buscar uma forma de detecção desses compostos em amostras de soro sanguíneo ou urina para facilitar a emissão de laudos médicos, visto que atualmente ainda se faz necessária a análise da amostra por espectrometria de massas para a inferência da estrutura da molécula.

A overdosagem do composto parece ser mais arriscada quando o consumo é feito na forma em pó

Para melhorar a literatura sobre essa substância, deve-se realizar experimentos para determinar seus efeitos a longo prazo, seu perfil de segurança e potencial aditivo. A morte de dois adolescentes no Brasil, um por ingestão sublingual20 e outro por inalação21, reafirmam a presença dessa droga nos dias de hoje em mais de uma forma passível de ser consumida. Enquanto a versão em pó é tem efeito mais curto e mais intenso, com início de duração quase instantâneo, a versão sublingual demora algum tempo a ter seu efeito, mas parece durar por mais tempo22.

A overdosagem do composto parece ser mais arriscada quando o consumo é feito na forma em pó, visto que um papel absorvente, a unidade consumida de forma sublingual, não consegue conter muito mais do que 1mg da substância. Um caso clínico relata que 6 jovens consumiram 25I-NBOMe acreditando ser 2C-B14. Apesar de o artigo não dizer a quantidade consumida por eles, pode-se supor que os mesmos tomaram de 5 a 25mg de 25I-NBOMe, intervalo de peso correspondente a uma dose leve ou comum de 2C-B23.

É importante reafirmar que o fato de os jovens não terem sofrido complicações mais acentuadas com a dose ingerida não confere confiabilidade e segurança ao composto. Os diversos casos de morte e acidentes a ele ligados parecem estar mais íntimos a criação de um comportamento que gera exposição a situações de risco do que a um risco fisiológico intrínseco. É necessário, portanto, entender qual a cascata de reações desencadeada pela ligação dos compostos com os receptores do tipo 5HT2A24 e de que forma essa interação contribui para a geração do comportamento de risco observado nos pacientes.

Referências

  1. Schultes, R. E., Hofmann, A., & Rätsch, C. (2001). Plants of the gods: their sacred, healing, and hallucinogenic powers (pp. 124-135). Rochester, VT: Healing Arts Press.
  2. McKenna, D. J., Callaway, J. C., & Grob, C. S. (1998). The scientific investigation of Ayahuasca: a review of past and current research. The Heffter Review of Psychedelic Research, 1(65-77).
  3. McKenna, D. J. (2004). Clinical investigations of the therapeutic potential of ayahuasca: rationale and regulatory challenges. Pharmacology & therapeutics,102(2), 111-129.
  4. Parrott, A. C., & Stuart, M. (1997). Ecstasy(MDMA), amphetamine, and LSD: comparative mood profiles in recreational polydrug users. Human Psychopharmacology Clinical and Experimental, 12(5), 501-504.
  5. https://www.incb.org/documents/Narcotic-Drugs/1961-Convention/convention_1961_en.pdf [25.10.2014]
  6. Buchanan, J. F., & Brown, C. R. (1988). Designer drugs. Medical toxicology and adverse drug experience, 3(1), 1-17.
  7. Soh, Y. N. A., & Elliott, S. (2013). An investigation of the stability of emerging new psychoactive substances. Drug Testing and Analysis, 6(7-8), 696–704. doi:10.1002/dta.1576
  8. Shulgin, A., & Shulgin, A. (1991). PIHKAL: a chemical love story. Transform Pr.
  9. http://www.erowid.org/chemicals/nbome/nbome_effects.shtml [25.10.2014]
  10. Ninnemann, A., & Stuart, G. L. (2013). The NBOMe Series: A Novel, Dangerous Group of Hallucinogenic Drugs [OPEN ACCESS]. Journal of studies on alcohol and drugs, 74(6), 977.
  11. Braden, M. R., Parrish, J. C., Naylor, J. C., & Nichols, D. E. (2006). Molecular interaction of serotonin 5-HT2A receptor residues Phe339 (6.51) and Phe340 (6.52) with superpotent N-benzyl phenethylamine agonists. Molecular pharmacology, 70(6), 1956-1964.
  12. Stellpflug, S. J., Kealey, S. E., Hegarty, C. B., & Janis, G. C. (2014). 2-(4-Iodo-2,5-dimethoxyphenyl)-N-[(2-methoxyphenyl)methyl]ethanamine (25I-NBOMe): clinical case with unique confirmatory testing. Journal of Medical Toxicology : Official Journal of the American College of Medical Toxicology, 10(1), 45–50. doi:10.1007/s13181-013-0314-y
  13. Rose, S. R., Poklis, J. L., & Poklis, A. (2013). A case of 25I-NBOMe (25-I) intoxication: a new potent 5-HT2A agonist designer drug. Clinical Toxicology (Philadelphia, Pa.), 51(3), 174–7. doi:10.3109/15563650.2013.772191
  14. Hill, S. L., Doris, T., Gurung, S., Katebe, S., Lomas, A., Dunn, M., … Thomas, S. H. L. (2013). Severe clinical toxicity associated with analytically confirmed recreational use of 25I-NBOMe: case series. Clinical Toxicology (Philadelphia, Pa.), 51(6), 487–92. doi:10.3109/15563650.2013.802795
  15. http://www.smh.com.au/nsw/teen-jumps-to-his-death-after-150-drug-hit-20130606-2nrpe.html [25.10.2014]
  16. http://www.news.com.au/national/nsw-act/teenager-nick-mitchells-lsd-overdose-death-delusions-and-despair/story-fndo4bst-1226530792737 [25.10.2014]
  17. http://www.news.com.au/national/roberto-laudisio-curti-heard-messages-from-god-inquest-hears/story-fncynjr2-1226490950032 [25.10.2014]
  18. http://www.indyweek.com/indyweek/an-apex-teen-dies-of-an-overdose-of-synthetic-lsd/Content?oid=3837336 [25.10.2014]
  19. http://www.abc.net.au/7.30/content/2013/s3820575.htm [25.10.2014]
  20. http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/10/1533238-estudante-encontrado-morto-usou-droga-e-se-afogou-na-usp-diz-laudo.shtml [25.10.2014]
  21. http://g1.globo.com/sao-paulo/sao-jose-do-rio-preto-aracatuba/noticia/2014/10/estudante-alemao-morreu-por-overdose-confirma-laudo-do-iml.html [25.10.2014]
  22. Lawn, W., Barratt, M., Williams, M., Horne, A., & Winstock, A. (2014). The NBOMe hallucinogenic drug series: Patterns of use, characteristics of users and self-reported effects in a large international sample. Journal of Psychopharmacology (Oxford, England), 28(8), 780–788. doi:10.1177/0269881114523866
  23. http://www.erowid.org/chemicals/2cb/2cb_dose.shtml [25.10.2014]
  24. Halberstadt, A. L., & Geyer, M. a. (2014). Effects of the hallucinogen 2,5-dimethoxy-4-iodophenethylamine (2C-I) and superpotent N-benzyl derivatives on the head twitch response. Neuropharmacology, 77, 200–7. doi:10.1016/j.neuropharm.2013.08.025

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  • Anderson Oliveira Sampaio

    Onde compro? haha