Os criptomercados e as mudanças no tráfico internacional de drogas

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20 de abril de 2015

Em fevereiro de 2011 surgia o Silk Road. Com nome inspirado pela histórica rede de rotas comerciais, ele marcava o início de um novo paradigma de mercados ilegais. O site operava na rede Tor e as transações eram feitas via Bitcoin, o que proporcionava aos usuários navegar e fazer trocas sem comprometer sua anonimidade.

Quando caiu na mídia, o Silk Road era às vezes chamado de eBay das Drogas. O sistema é bem parecido: uma plataforma para reunir compradores e vendedores e possibilitar trocas entre eles de forma livre. Da mesma forma, os produtos eram enviados pelos sistemas postais espalhados pelo mundo.

Em 2013, o FBI derrubou o site e apreendeu o equivalente a 28.5 milhões de dólares em bitcoins. Até então, o Silk Road já tinha intermediado aproximadamente 1.3 milhões de transações e movimentado 1.2 bilhões de dólares. Na época existiam no site 13 mil listagens de produtos, incluindo cannabis, dissociativos, estimulantes, opioides, ecstasy, psicodélicos, esteroides e medicamentos prescritos. Também eram oferecidos serviços como roubo de cartões de crédito, falsificação de documentos e até assassinatos; assim como produtos legais como tabaco, livros, joias e roupas. Mas o foco principal eram as drogas, ocupando mais de 80% das listagens.

Assim como no mercado tradicional, não adianta apreender drogas, encarcerar fornecedores ou fechar mercados. A demanda sempre existirá e sempre haverá alguém interessado em atendê-la.

O Silk Road terminou, mas na mesma época, já existiam serviços similares como o Black Market Reloaded, Sheep Marketplace, e pouco tempo depois, o Silk Road 2.0. Apesar de certas particularidades, todos partiam do mesmo princípio, e como já era esperado, o mercado que o Silk Road dominava migrou para eles. Assim como no mercado tradicional, não adianta apreender drogas, encarcerar fornecedores ou fechar mercados. A demanda sempre existirá e sempre haverá alguém interessado em atendê-la.

Até certo tempo atrás, o Agora e o Evolution eram os principais serviços, com aproximadamente 15 mil listagens cada. Há algumas semanas o Evolution saiu do ar e tudo indica que os administradores o derrubaram de propósito e “fugiram” com o dinheiro, tornando o Agora o principal ponto de encontro entre consumidores e vendedores de drogas.

 

Home do primeiro Silk Road

 

Segurança

A ideia de encomendar ou vender drogas pelos correios é difícil de ser engolida. Normalmente essas trocas ocorrem entre as únicas partes interessadas. Envolver sistemas postais e alfândegas (no caso de uma troca internacional) é no mínimo suspeito. Porém, esse tipo de comércio tem tornado o mercado de drogas mais seguro para os fornecedores e para os compradores.

esse tipo de comércio tem tornado o mercado de drogas mais seguro para os fornecedores e para os compradores

As negociações normalmente acontecem na rede Tor, tornando difícil rastrear os usuários. Os dados são encriptados antes de serem enviados por diversos servidores aleatórios da rede até chegar no destino final. A cada servidor, é revelado o caminho para o próximo, e assim suscetivamente, até que chegue ao último servidor, que decripta a informação original e a transmite para seu destino sem revelar o IP original. O Bitcoin, moeda usada para os pagamentos, também funciona de forma que protege a identidade dos usuários. O sistema é descentralizado e as operações são criptografadas. Apesar da segurança que os sistemas oferecem, o usuário também deve colocar em prática diversos hábitos para evitar que seja identificado. Grupos de discussão espalhados pela internet e os próprios serviços fazem diversas recomendações paraos usuários sobre como permanecer no anonimato.

Do lado do comprador, tudo pode ser feito sem sair de casa. Não é preciso se comprometer pedindo contatos a amigos nem se expor tendo que encontrar com alguém em um local público e depois se locomover portando drogas ilegais até chegar em casa. O usuário faz a compra dentro de casa e ela é entregue na sua caixa de correios, normalmente em uma carta não-registrada, dispensando a necessidade de assinar seu recebimento. Os fornecedores usam todos os tipos de artimanha para disfarçar o produto dentro de um envelope comum e discreto, fazendo com que a encomenda se misture entre as milhões de encomendas que trafegam pelo mundo todos os dias.

 

Home do Sheep Marketplace

 

Há raros casos da encomenda ser interceptada e a polícia local enviar uma correspondência para o destinatário pedindo explicações, mas nesse caso se aplica a negação plausível, que é a habilidade de um indivíduo negar seu envolvimento em qualquer ato que pode ter sido cometido por outros e pela falta de evidência que confirme sua participação. Qualquer pessoa pode enviar qualquer coisa para qualquer pessoa pelos correios, e isso não significa que o destinatário esteja envolvido.

Também existem as entregas controladas, em que a polícia tenta fazer a entrega e identifica o comprador. Mas nesse caso, a operação só pode ser feita se o destinatário assinar o recebimento. É quase regra para os vendedores da deep web enviar as encomendas sem registro, ou seja, se um policial vestido de carteiro tocar na casa do comprador e pedir para ele assinar o recebimento de uma encomenda do país de origem do vendedor com quem ele comprou, ele saberá que tem algo errado e recusará o recebimento.

Se o produto não chegar por algum motivo, na maioria dos casos o usuário pode usar o Escrow – sistema em que o dinheiro fica retido no site e só é liberado quando o produto é recebido. Normalmente os vendedores oferecem reembolso ou reenvio. Certos vendedores se recusam a utilizar o sistema, visto que é comum compradores mentirem sobre o não-recebimento do produto.

Em 2014, a Folha publicou uma matéria sobre apreensão de drogas vindas do exterior. A dificuldade em importar aumentou nos últimos tempos, visto que as alfândegas e os Correios começaram a usar aparelhos de raio-x e espectômetros de massa para identificar o conteúdo das encomendas. Porém, menos de 1% delas passam por essa verificação. Em outubro do ano passado, um promotor encomendou drogas pelos correios e a entrega foi feita em um fórum de São Paulo.

Na era dos criptomercados de drogas, ter um bom atendimento ao consumidor e habilidades de escrita talvez sejam mais importantes que músculos e conexões cara-a-cara

Existe um estudo que comprovou que o Silk Road diminuiu a violência associada ao tráfico de drogas entre fornecedores. O motivo é que o site diminuiu o contato físico entre eles. O estudo diz que “Ao passo que a violência [no comércio tradicional de drogas] era usada para ganhar fatias do mercado, proteger áreas e resolver conflitos, a localização virtual e anonimidade que os criptomercados oferecem reduzem ou eliminam a necessidade – ou até a possibilidade – de recorrer à violência. Na era dos criptomercados de drogas, ter um bom atendimento ao consumidor e habilidades de escrita talvez sejam mais importantes que músculos e conexões cara-a-cara.”

Bala boa, LSD de verdade e atendimento ao cliente

Um dos maiores problemas relacionados ao uso de drogas atualmente é que a maioria das amostras encontradas nas ruas são adulteradas e/ou de baixa qualidade: 25I-NBOMe sendo vendido como LSD; cocaína misturada com bicarbonato de sódio; 2C-B, cafeína e PCP em comprimidos de ecstasy; maconha prensada etc. Como se trata de um comércio ilegal, o consumidor não pode reclamar no PROCON. Ir atrás do fornecedor também é improvável para a maioria dos compradores, visto que a figura do traficante costuma estar relacionada a hostilidade e violência. O máximo que se pode fazer é não comprar mais da mesma fonte.

Torna-se praticamente impossível vender drogas de má qualidade ou oferecer um serviço ruim

Como no MercadoLivre ou eBay, os criptomercados têm um sistema de avaliação em que tanto os produtos como os usuários são avaliados. Antes de comprar, é possível ter certa garantia de que o que se está comprando é realmente o que é anunciado, se o vendedor envia rápido, se o disfarce que ele usa é eficiente ou se o atendimento ao consumidor é satisfatório.

Torna-se praticamente impossível vender drogas de má qualidade ou oferecer um serviço ruim. O fornecedor que ousa fazer isso rapidamente adquire uma reputação ruim e perde qualquer chance de fazer algum negócio. Os compradores também são avaliados, protegendo os vendedores de calotes.

Perspectiva

Criptomercados descentralizados já começam a surgir e provavelmente serão a nova tendência, visto que eles eliminam um ponto central em que as autoridades possam agir sobre. Eles também acabam com a possibilidade dos administradores do serviço “fugirem” com o dinheiro, como aconteceu com o Sheep Marketplace e o Evolution.

 

Mockups do Shadow, projeto de mercado descentralizado

Mockups do Shadow, projeto de mercado descentralizado

 

Apesar de muitas drogas comercializadas e bilhões de dólares movimentados, só fazem 4 anos desde o surgimento do primeiro Silk Road. Em escala histórica, ainda estamos no surgimento desse novo modelo de mercado. Mudanças, inovações e questões políticas ainda surgirão, e o sentido desse movimento parece apontar para maior liberdade no que diz respeito ao consumo e comercialização de drogas.

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